Valorizar o produtor rural não é repetir slogan de televisão dizendo que “agro é pop”. Isso é marketing para grandes conglomerados que produzem toneladas de soja, milho e algodão voltados para exportação — e que, aliás, contam com incentivos fiscais tão generosos que a maior parte dessa riqueza nem circula na economia local.
Quando falamos em valorizar o produtor rural, estamos falando do pequeno. Aquele que vive no sítio, que planta café, milho, feijão, cria meia dúzia de vacas, tira o próprio leite, tem umas galinhas para garantir os ovos e luta diariamente para manter a propriedade de pé.
É sobre quem lida com a chuva que não vem… ou que vem demais. É sobre quem perde toda a lavoura num granizo inesperado. É sobre a praga que destrói meses de trabalho em poucas horas. É sobre contas de água, luz, alimentação, manutenção — que chegam todo mês. E quando a safra se perde? Só no ano seguinte para tentar de novo.
Dois ou três anos seguidos de seca, geada ou qualquer capricho da natureza, e esse pequeno produtor afunda em dívidas. Não existe seguro milionário cobrindo prejuízo, não existe maquinário subsidiado chegando via financiamento estatal, não existe barracão construído com incentivo fiscal. Existe trabalho. Existe risco. Existe suor.
Enquanto isso, o grande produtor tem acesso a linhas de crédito favorecidas, incentivos para comprar máquinas, construir armazéns, exportar sem sentir o peso real dos impostos. Não é culpa dele — é o modelo econômico. Mas é preciso reconhecer a diferença.
Por isso, prestigiar o pequeno produtor não é atacar o grande. É entender que os valores não se medem só em hectares. O grande movimenta dinheiro; o pequeno sustenta famílias, tradições e comunidades inteiras. O grande gira a economia global; o pequeno garante comida fresca na mesa da sua cidade.
Valor não é só aquilo que custa dinheiro. Valor é aquilo que mantém a vida acontecendo.
E é por isso que, quando você compra do pequeno produtor, você não está apenas comprando um produto. Você está ajudando alguém a continuar plantando, criando, sonhando — e mantendo viva a essência da agricultura de verdade.
Sertão 90